Roupas deste e de outros tempos

Por Bruna Venâncio

Eu nasci e cresci nesse tempo em que a roupa pode ser comprada em supermercados, em que a gente veste algo que gostaríamos de ser, mas que alguém escolheu para nós e em que pouco nos preocupamos com a qualidade do tecido, pois estamos sempre comprando roupas novas.

Mas, minha mãe e minha vó viveram um tempo um pouco diferente deste. A maior parte das roupas que a minha mãe usou na juventude foram feitas sob medida. Ela, possivelmente, tinha menos roupas do que eu, mas não tenho dúvidas de que as peças tinham mais identidade, por mais que fossem inspiradas em catálogos e revistas de moda.

O ato de escolher o modelo, comprar o tecido, discutir medidas e questionar um ou outro ajuste parece mesmo coisa de outros tempos. Quando criança eu ia à costureira apenas para fazer vestidos de festa. E já naquela época isso parecia estranho e até meio antiquado. Hábito que minha mãe herdou de minha vó, é evidente. Coisa que de alguma maneira carreguei comigo não só nos tecidos, mas na memória.

Uma das primeiras peças que eu usei na vida, uma manta branca e amarela de tricô, foi feita pela minha mãe especialmente para o dia do meu nascimento. É uma das únicas lembranças materiais da minha infância que, aliás, existe até hoje e está lá, no armário da minha mãe, muito bem guardado como item de valor sentimental.

É curioso como na minha família tudo o que é importante, no que diz respeito a vestuário, a gente manda fazer. Na época da formatura, decidi por mandar fazer o vestido da festa. Escolhi o modelo na internet – esse catálogo que não se esgota – e procurei alguém de confiança para a confecção. O resultado ainda hoje me satisfaz, quando vejo em fotos o vestido que demorou quase um ano para ficar pronto.

Esse hábito que a minha avó nos ensinou era como um cuidado especial que se refletia em tudo o que ela fazia. Para se ter uma ideia, todas as camisolas dela eram feitas à mão. Sempre que penso nisso, fico sem entender quando é que deixei escapar esses hábitos, quando é que me distanciei dessa forma de encarar as roupas, a ponto de ir dormir usando camisetas velhas.

Quando ela morreu, lembro de entrar no quarto dela, abrir o guarda-roupa e encontrar suas roupas todas muito bem organizadas, penduradas em cabides, como se ela soubesse que alguém iria vigiar o asseio. Pensar que ela havia usado aquelas roupas por toda a vida e que cada uma delas tinha suas medidas, que haviam sido feitas para ela me fez perceber que as roupas que deixamos funcionam como memórias de nós que ficam para os outros.

Naquele dia, eu iria dormir na casa dela – mesmo que ela não estivesse mais lá, a casa ainda era dela. Não havia me preparado para dormir fora de casa, então peguei uma de suas camisolas. No dia seguinte, eu a trouxe comigo. Acho que eu não conseguiria guardar a camisola com o mesmo cuidado que ela tinha com tudo. Eu precisava lavar a camisola, passar, tentar, ao menos deixá-la como a minha avó o faria. Mas, é claro, eu jamais nunca conseguiria.

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