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Rabble: calçados para fazer o bem

Por Nádia Mello.

21389325_1530892823621259_314662934_oConheci a Rabble no Facebook. Vi que ia rolar o workshop de consertos de sapatos e fiquei interessada. Inclusive, a Monique Brasil chegou a me mandar uma mensagem por conta disso. Mas eu não poderia comparecer (eu tenho o – péssimo, talvez – hábito de colocar interesse em todos os eventos que me interessam). Mas ficou nisso. 

Até agosto quando ela postou que iria participar da The Street Store (para quem não sabe é uma loja para moradores de rua), eu interessada, mandei mensagem dizendo que gostaria de participar. Começamos a conversar, ela falando da Rabble e eu do Desguarda, foi quando combinei com ela de fazer esta entrevista porque o trabalho dela é bem incrível. 😉

– Como começou a Rabble?

Eu fiz design digital na faculdade. Quando comecei a fazer, já vi que tava no caminho errado. Pensei em fazer moda, mas, para mim, era uma coisa muito distante porque eu via as meninas de moda e era uma coisa que eu não queria ser. E acabei não fazendo por esse motivo. Achava que eu não me encaixava, digamos assim.

No curso de design, acabei fugindo totalmente, fui trabalhar com Trade Marketing em grandes empresas. Foi bom esse período porque consegui fazer as coisas que eu precisava: comprei meu apartamento, paguei minha festa de casamento que sempre quis, fui viajar. Então, valeu a pena. Se eu tivesse iniciando uma carreira no design ou na moda, não teria feito essas coisas que são importantes.

21390665_1530892870287921_825641188_oMas tendo essa experiência nessas empresas  chegou um momento em que não quis mais. Essas empresas tratam muito mal funcionário, mesmo. Assim, você tem milhões de metas e se não bater, você é um bosta. E não queria isso para minha vida.

Comecei a procurar só que estava numa fase de consumo diferente e foi acontecendo uma transformação dentro de mim, a ideia de fazer a marca veio junto com essa transformação. Há uns três anos, eu participei de uma oficina do Re-roupa, junto com o Roupa Livre, da Mari Pelli, e foi lá que eu realmente comecei a mudar a minha forma de consumir. 

Eu já tinha uma visão da moda um pouco diferente, mas através do projeto delas, repensei mais coisas. Comecei a pensar o que eu mais gostava que eu poderia fazer e veio o sapato – uma paixão que sempre tive. E fui estudar: fiz um curso de Design num ateliê aqui em São Paulo, que chama Moda-Imagem, de Design de Sapato. Fiz o curso de Confecção de Manual de Calçado. Depois, de modelagem. Ambos no Senai e tive a formação completa.

Passei a pensar na marca, como ela ia se chamar, o nome tinha que ter a ver com a personalidade da marca – queria que ela fosse uma personificação do que penso e acredito -, mas que não tivesse meu nome. Pra mim, isso soava egocêntrico.

21458742_1530911896952685_813240702_oE veio Rabble, que significa coletivo de borboleta e tem todo um significado. A marca ela não é só a Rabble enquanto marca ou a Monique por trás da marca. Ela é a marca mais as pessoas que consomem e mais as pessoas que transitam em torno da marca, as parceiras. Tenho que procurar parceiros que tenham a ver com o que eu acredito também. Por isso desse nome, porque é um coletivo  – que eu acho lindo, esvoaçante como as borboletas são -, mas de pessoas que pensam num bem maior, que estão com um propósito de vida. Algo que tenha importância e relevância não só para quem faz, mas para quem consome e para sociedade em si.

Eu consigo, agora, alinhar uma coisa que eu preciso fazer – que é ter um retorno financeiro para eu poder viver – mas junto com projetos em que acredito, me engradecem e engrandecem quem participa e quem consome, digamos assim. É isso que a Rabble representa para mim.  

Quando a marca surgiu, ainda estava trabalhando, foi no meio do ano passado, faz pouco tempo. Mas fazia o sapato de forma artesanal, como a pessoa encomendava. Não tinha uma linha, uma coleção, nada disso. Há dois meses só, em junho, eu me desvencilhei 100% da outra empresa que eu trabalhava para me dedicar só a marca.

21390280_1530911870286021_508909415_oEntão, nesse meio tempo, eu não conseguia fazer muito manualmente. Acabei adquirindo parceiros; tenho dois parceiros em Franca, que são fábricas que me ajudam. Eles aceitam receber todo material por mim, assim, consigo garantir a procedência do material utilizado. Eles fazem o sapato num processo que chamo de semi artesanal porque tem uma linha de produção, mas é muito específico: tecido de reuso – que precisa descosturar manualmente -, o corte do modelo é manualmente, costurar manualmente também depois porque tem tecido que a dublagem fica frágil, pode rasgar. Então, tem muitas partes do processo que eles fazem com muito cuidado, um carinho imenso nessa parceria. Só que agora estou sentindo falta de fazer.

Então, quero retomar um pouco mais essa questão do manual. Pensar pro ano que vem em fazer uma coleção bem mais autoral, mais artesanal mesmo. E conforme a demanda for aumentando, pensar de que forma vou manter artesanalmente e sempre com os princípios da marca.

21389156_1530911866952688_144287604_o– Quais as dificuldades com a marca?

Olha, são muitas dificuldades. Agora, tô ficando um pouquinho mais esperta no sentido de fornecedor. Vou te falar das dificuldades que eu tive no início, tanto é que algumas dificuldades me fizeram pensar na ideia de dar os cursos para ser também uma forma de assessoria para quem tá começando porque o começo é muito, muito difícil.

O mercado calçadista é muito fechado, muito fechado mesmo. No início, eu simplesmente não sabia nada, não sabia onde achar fornecedor, não tinha noção nenhuma, nenhuma, nenhuma. E eu quebrei a cara. Teve gente que deixei material para fazer e a pessoa nem tava mais no lugar, levou tudo embora e eu paguei. Não contente, eu passei por isso duas vezes.

Fui trouxa mesmo assim de pagar antes e confiar na pessoa. Achava que tinha gente que age de má fé, mas tem. Infelizmente, até quando você tá procurando pessoas que acha que vai ajudar, essas pessoas te sacaneiam. Então, já aconteceu duas vezes isso, uma paguei metade antecipado, outro mais do que a metade assim e eu perdi tudo. 

21390209_1530911900286018_1573507497_oEncontrar parceiros mais profissionais também, porque essa questão do artesão, às vezes, você pode ir pra alguém que você não conhece. Então, é preciso encontrar pessoas que você vai ajudar mas você sabe também que tem um profissionalismo maior, que tem uma estrutura, não pode ser qualquer um, igual eu tava fazendo no início.

E é um mercado muito fechado porque assim ou ele é dominado pela indústria ou você tem esses artesãos, mas que 99% já é um pessoal mais de idade, já são senhores. E 100% homens, não tem mulher. Então, a indústria não vai te passar informação porque é ela que faz aquilo e não quer que ninguém mais aprenda, porque ela acha que vai diminuir as vendas e o artesão ou sapateiro é a mesma coisa.

Ele não quer passar o conhecimento porque é uma pessoa de uma outra época, tem uma cabeça muito mais fechada. As pessoas não tem acesso a informação, não sabem onde procurar, quando você tá começando não tem ninguém que te ajude. Ninguém.

E aí, você tem que saber como vai conseguir se fortalecer, então, na verdade, foi bem sozinho. Para quem tá iniciando, essa parte é muito solitária. Então, a ideia de fazer os cursos foi para isso também, para fomentar o mercado, sabe, pra trazer mais gente criativa, gente nova, porque ele tá muito estagnado. Tanto que você vê, né, assim, não vou citar as feirinhas alternativas, de artesanato. 

21389511_1530911943619347_1096001532_oAs dificuldades a mais, acho que é a de empreender, como todo mundo. É muito solitário empreender. Tem muitas coisas que você tem vontade de fazer e você não tem que te apoie, principalmente, se é uma coisa mais focada no setor.

Por exemplo, eu tenho um projeto que eu quero iniciar com alguns saltos diferentes ou até alguns solados diferentes que eu tenho vontade de fazer. Não só em design, mas em termos de matéria-prima também. Não existe nenhum fabricante que faz. E se eu faço uma ideia e peço para algum fabricante de solado desenvolver – sei que é uma coisa simples para um fabricante fazer, não é uma coisa que gere um custo absurdo, por mais que ele tenha que introduzir na linha de produção dele – ele vai me cobrar, no mínimo, uns cinco mil reais para fazer um protótipo de um solado. Eu sou pequena, não tenho condições de dar cinco mil reais em um protótipo de um solado pra, se der certo o protótipo, ter de encomendar mais de dois mil pares.

Não é isso que eu sou, não é nem o que eu quero ser.

Então, é um trabalho que eu tenho que estar constantemente sendo criativa pra poder buscar alternativas de fazer o que eu quero, constantemente. Acho que isso é uma das dificuldades também.

21439415_1530892826954592_1974333565_o– O que você quer com a Rabble?

Eu quero muito que a marca seja conhecida por ser um multiplicador de projetos que fazem o bem. Quero ser um fator transformador, tornar conhecidas pessoas incríveis, sabe, costureiras incríveis, pessoas que fazem realmente aquilo, mostrar que as pessoas não precisam e não são marionetes de consumo. Elas não tem que consumir aquilo que mostram pra elas, que as escolhas de consumo são escolhas políticas. Não são escolhas de: “ai, esse produto é bonito, então, eu vou levar”.

São escolhas sobre qual mundo elas querem viver. É essa mensagem que eu quero passar e só quero ter condição de continuar tocando a minha marca, não pretendo que ela seja grande, absurdamente enorme, no sentido financeiro, eu só quero ter condições disso de tornar outros projetos tão incríveis que ajudam outras pessoas a serem maiores nesse sentido, não sei se eu soube explicar.

21390333_1530892850287923_821112460_o– E você tem planos futuros para a marca?

De longo prazo não, é mais no curto prazo. Assim, eu vou tendo ideias e penso em quanto tempo posso implementar porque não adianta também querer fazer tudo ao mesmo tempo. Então, tem algumas ideias que vejo que é viável e já dá para fazer, outras coisas acho que é pro ano que vem, mas nada a muito longo prazo. Eu penso na marca e quero ter meu próprio espaço ainda, quero que seja, não uma loja, mas como se fosse uma academia, onde as pessoas vão ver de perto meu trabalho sendo feito e de quem trabalha comigo. A pessoa vai ver o modelo sendo feito bem na frente dela, vai ser um ateliê junto com um espaço de aprendizado, onde os cursos acontecem. Isso é uma coisa que eu quero muito ter: um lugar onde receber as pessoas. E ajudar novas marcas também, assessorar a quem quer empreender no setor, desde que tenha um viés também sustentável, fair trade, que seja uma coisa com propósito maior.

– Atualmente, a marca é você. Pensa em ter mais gente?

Eu penso, penso sim porque já tá uma loucura, é muito difícil dar conta de tudo, mas ainda consigo. E, agora, tô dando um passinho um pouco pra trás, de voltar a fazer artesanalmente, isso vai me tomar muito tempo porque o processo artesanal de fazer um sapato é muito demorado. E quando a demanda crescer, eu não quero terceirizar mais, nenhum sapato. Vai ser uma coisa bem devagar que vai ser com o tempo. Não sei quando isso vai acontecer.

21441402_1530911920286016_659903546_o– Quanto tempo demora para fazer um sapato artesanalmente?

Depende muito do modelo, muito. Mas um sapato simples, básico, uma rasteirinha você faz em três horas. Uma alpargatas você faz em três horas, um sapato. Mas se vai para uma bota, uma coisa mais sofisticada, que precisa ter mais costura, tem mais recortes, aí vai de cinco a seis horas um par de sapato.

– E na fábrica?

Na fábrica é coisa de menos de uma hora, um pouquinho mais de meia hora entre uma hora. Deve ser uns 40 minutos, na média. Mesmo assim, é demorado porque tem a parte que acaba sendo artesanal porque eles descosturam a peça na mão, costuram no sapato manualmente também porque pode rasgar. Apesar de ser uma linha de produção, tem esses processos que acabam sendo manuais e tomam mais tempo.

– E a sustentabilidade, você aplica em outras partes da sua vida?

Aplico, mas também tô num processo de transformação. Eu acho que a marca me incentiva a mudar em muitas coisas. Comecei, há pouco tempo, a reciclar o lixo da minha casa, coisa que eu não fazia. Tudo que for consumir, por exemplo, eu penso muito. Hoje, consigo planejar tudo o que vou consumir, coisa que nunca fiz, imagina.

Lá em casa, a gente compra exatamente aquilo que a gente consome no dia ou na semana. Eu tenho desperdício zero de alimento, por exemplo. Então, eu tô tentando implementar aos poucos assim. Não procuro me cobrar em ser uma pessoa 100% sustentável porque acho que isso é um processo que vai ser ao longo do tempo, assim como a marca também é uma coisa que vai ser ao longo do tempo. 

Rabble: Site, email, telefone (whastapp)

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