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Pensata: Comércio Justo

Por Nádia Mello

Dentro de todo esse movimento de “reinvenção” da indústria da moda para que ela se torne mais sustentável, o comércio justo (ou fair trade) é um de seus pilares. Esse conceito surgiu no final da década de 60, na Holanda, quando foi criada a Fair Trade Organisatie e a primeira loja de comércio justo.

Segundo a World Fair Trade Organization (WFTO), comércio justo é “uma parceria comercial baseada no diálogo, na transparência e no respeito, que busca maior equidade no comércio internacional e contribui para o desenvolvimento sustentável, oferecendo melhores condições comerciais e garantindo direitos dos produtores e trabalhadores marginalizados – principalmente no Hemisfério Sul”.

Para estar dentro desta ideia, existem alguns princípios a serem seguidos, como:

– Criar oportunidades para produtores economicamente desfavorecidos para que tenham autossuficiência;

– Transparência e corresponsabilidade na gestão da cadeia produtiva e comercial;

– Relação de longo prazo que ofereça treinamento e apoio aos produtores e acesso às informações do mercado;

– Pagamento de preço justo no recebimento do produto, além de bônus que deve beneficiar toda a comunidade, e de financiamento da produção ou do plantio, ou a antecipação do pagamento da safra, quando necessário;

– Organização democrática dos produtores em cooperativas ou associações;

– Compromisso com a não-discriminação, equidade e empoderamento das mulheres;

– Respeito à legislação e às normas (por exemplo, trabalhistas) nacionais e internacionais;

– O ambiente de trabalho deve ser seguro e saudável;

– Nenhuma utilização de trabalho forçado e há cumprimento da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito das Crianças;

– O meio ambiente deve ser respeitado.

Ou seja, adotando tais princípios já estaríamos alcançando os objetivos e ações que vemos todos os movimentos fazendo; do incentivo ao comércio local e pequeno produtor, passando pela preservação do meio ambiente chegando a relações respeitosas de trabalho e valores justos.

Os sistemas de certificação levam em consideração, principalmente, os produtos agrícolas e a taxa de trabalho escravo e infantil. O Fair Trade Internacional (FLO), World Fair Trade Organization (WFTO), Internacional Federation of Alternative Trade (IFAT) e o Fairtrade Labelling Organization Internacional (IFLO) são as principais organizações de incentivo, certificação e implementação do comércio justo. Na moda, temos o Ethical Fashion Iniciative que conecta e acompanha designers e comunidades.

Comércio Justo no Brasil 

No Brasil, ainda precisamos avançar (e muito) para caminhar neste sentido. Existem duas problemáticas que precisamos considerar. A primeira delas já exposta por Marina Colerato, do Modefica, neste post: a ideia de que comércio justo é estar de acordo com as leis trabalhistas. Não, é muito mais do que isso, aliás, seguir as leis trabalhistas é o mínimo – e, agora, a situação está um tanto mais complicada com as novas leis e medidas que vem sendo adotadas, mas isso vamos falar em uma outra pensata, ok?

A segunda problemática da moda brasileira é ser um mercado extremamente informal. De acordo com a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX), cerca de 30% das vendas advém de sacoleiros e camelôs. E não apenas isso, mas, principalmente, na produção. São profissionais não regularizados que, muitas vezes, por falta de informação ou possibilidade, acabam aceitando acordos de exploração de sua mão de obra, para o menor custo e maior lucro dos empresários.

Pagamento de preço justo

Uma das questões que mais me surgem quanto ao comércio justo é exatamente o que seria esse justo, em relação com preço e, consequentemente, salário.

Durante muito tempo, acreditei saber como avaliar se o preço de uma peça era justo ou não. Utilizava os critérios que estão sendo (re)aprendidos e reforçados atualmente: qual matéria-prima, processos envolvidos, etc. Porém, recentemente, a questão dos salários neste preço final tem me levado a alguns questionamentos.

Na maioria das vezes, a relação de comércio justo e salários se baseia no respeito ao valor cobrado pelo próprio “trabalhador”, algo como reconhecer o valor que ele se dá pelo preço que ele coloca em seu trabalho. Mas será que isso significa um salário justo?

Afinal, vivemos em uma sociedade com uma hierarquia bem definida em relação a cargos e funções a serem executadas que influenciam diretamente na remuneração de cada um.

Em moda, por exemplo, os criadores costumam receber melhores remunerações do que modelistas, costureiras, entre outros. Embora, muitas vezes, o sucesso de uma peça, dependa fundamentalmente de seu caimento e acabamento, sua costura e modelagem.

Muitas dessas relações foram estabelecidas, principalmente, após a Revolução Industrial e as profissões tidas como do “universo feminino” foram desvalorizadas e desqualificadas. No artigo ‘Descosturando gêneros’, da Ana Paula Cavalcanti Simioni, a autora analisa como no meio da Arte – incluindo aí a Moda – como a questão de gênero construiu bases para o reconhecimento de artistas masculinos e a falta de espaço para as mulheres.

“Na História Geral da Economia, publicado em 1919, o sociólogo Max Weber descreveu a diferença entre as profissões ‘masculinas’, (…), em relação aos trabalhos ‘femininos’, como a tecelagem da seda ou a produção têxtil para as indústrias domésticas, consideradas puras formas de labor. Em sua teoria, as fábricas têxteis, que empregavam majoritariamente mão-de-obra feminina, eram vistas como a mais pura materialização do conceito de trabalho alienado. Nelas, os operários (ou operárias, seria mais apropriado dizer) foram definitivamente destituídos da capacidade de projetar os objetos finais e da posse dos instrumentos de produção, ficando encarregados da simples execução braçal de tarefas repetitivas. Na margem oposta dessa figura emblemática do operário alienado, encontrava-se, justamente, a imagem potente do artista, sujeito de todas as etapas de seu próprio trabalho, desde a concepção da ideia, passando pela propriedade e uso livre dos meios da produção, até o objeto final de sua criação”.

Sendo assim, se nossas profissões também foram construídas dentro de papéis sociais a serem exercidos, atualmente, temos muito bem incorporado (mesmo que inconscientemente) tais construções. Por isso, em nosso imaginário, há a desvalorização do trabalho artesanal frente a um trabalho artístico ou de uma costureira em relação a um criador (embora, muitos dos, hoje, diretores artísticos de moda não saberiam confeccionar a ideia de roupa que propõem).

É, por isso, que por mais que se valorize, uma modelista irá passar o seu valor dentro de um padrão bem ou mal já estabelecido por nossa sociedade, dentro dos papéis sociais associados. Isso seria um salário justo? Será que uma remuneração justa não deveria considerar a contribuição e impacto de cada pessoa dentro da empresa e produto⁄serviço gerado? Por fim, qual o valor justo da mão-de-obra e do trabalho desempenhado por cada um em uma empresa?

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