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O vestido preto de poá

por Nádia Mello

 

17467534_10155148660259269_528446809_nTudo começou em 2005. Ano do aniversário de cinquenta anos da minha mãe e ela estava na busca por uma roupa para a comemoração especial. Com a lembrança de um vestido com saia godê vermelho de poá, desenhado por ela com a sua costureira, Dona Lourdes, quando jovem, decidiu que gostaria de uma peça com a estampa (por coincidência, as bolinhas são uma referência dos anos 50, década em que nasceu).

No entanto, a tarefa não seria das mais fáceis, o poá não estava em alta. Após procurar por um tempo, finalmente, achou um vestido com decote e estampa desejados. Ele era preto e as bolinhas, pequenas, diferentemente do vestido de sua lembrança.

Mesmo assim, não comprou logo. Segundo ela, é preciso se apaixonar pela roupa (acho que cada vez mais faz sentido meu gosto pela moda). Por isso, ela gosta de namorar a peça primeiro. Isto é, passar na loja, olhar. Depois de uns dias, voltar, pensar e lembrar dela. Até o momento de que a paixão vem e, com ela, a certeza de que é aquela peça que se quer.

Uma casa de samba na Lapa foi o local escolhido para a comemoração com o vestido preto de poá. Reuniu amigos e filhos, festejou e dançou (muito!). A peça se tornou a queridinha para festas e eventos (infelizmente, não tenho fotos para mostrar ela com o vestido 🙁 ).

Passados alguns anos, o vestido preto de poá começou a ficar apertado até um determinado momento em que não coube mais e pelo tamanho gostar da peça, minha mãe não conseguiu abrir mão e a guardou no armário. E foi assim que a roupa chegou às minhas mãos.

Victor e Mel _ the week

Primeira vez usando o vestido em uma festa com amigos

Era 2011 e procurava uma roupa para ir a uma festa com dois amigos da faculdade de jornalismo. Como não encontrei nada no meu armário que gostasse, pedi à minha mãe para olhar no armário dela. Foi quando me sugeriu usar o vestido preto de poá, aquele que já fora o preferido para este tipo de ocasião.

Como já não lhe servia e eu gostei, ganhei o vestido de presente. Porém, percebi que apesar desse gostar muito grande, algo fazia com que não o usasse. Vestia, mas na hora de sair, mudava.

No ano passado, estava no Facebook e em algum grupo (sorry, não lembro qual – a memória não é um ponto alto meu, preciso confessar) vi um post de uma menina que havia transformado um vestido em saia. E foi aí que tive a ideia de transformar a peça para que pudesse usar o vestido preto de poá.

Enviei uma mensagem por inbox, mas infelizmente (ou talvez seja felizmente e você vai entender o porquê logo mais, rs), ela era do Rio e eu estava voltando para SP, logo, não haveria tempo suficiente de ficar pronta.

Alguns dias depois, vi uma postagem também de transformação, mas com uma pessoa da “selva de pedra”, a Bruna. Mandei mensagem e combinamos de nos encontrarmos em uma sexta-feira à tarde.

Estudos sobre a transformação do vestido preto de poá

Estudos sobre a transformação do vestido preto de poá

Ela foi me pegar no metrô e fomos ao ateliê. Chegando lá, como éramos as duas de moda, conversamos sobre a visão que tínhamos do meio. E nossas ideias acabaram batendo de tal forma que o encontro de meia hora para pensar a transformação do vestido preto de poá se tornou em uma conversa de umas três ou quatros horas de duração.

Quanto ao vestido, ao colocá-lo no manequim, ela ficou me olhando e questionando se queria mesmo mudar. Afinal, a peça era tão bonita. E eu confirmei que sim, mas não usava, então, algo precisava ser feito.

A ideia inicial era fazer um decote nas costas. Mas na hora que foi mexer a Bruna percebeu que o tecido cedia bastante tornando inviável fazer o que pensamos. A solução foi retirar as mangar, uma pequena abertura nas costas e encurtar alguns centímetros.

Em alguns dias, recebi a peça pronta e, hoje, uso ele tanto para o dia a dia quanto para noite.

Mas a história do vestido preto de poá não acaba aí. A partir das conversas e a descoberta de visões próximas sobre o mundo e, principalmente, da moda, eu e a Bruna nos tornamos amigas.

Combinávamos de trabalhar juntas, como as duas trabalhavam de casa, era uma forma de termos companhia. E, em junho, ela me chama para fazer parte do seu projeto de trabalho, o Desguarda Roupa. E, bem, acho que o resto da história é o que vocês já conhecem, veem e acompanham por aqui…

😉

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História das Roupas

Este ano, um dos projetos do Desguarda é um livro sobre a História das Roupas. A ideia surgiu exatamente ao pensarmos sobre como eu e a Bruna nos conhecemos a partir de uma peça de roupa. E pensar nas relações que temos com as roupas e contar essas histórias é também um estímulo a rever nossa forma de consumi-las.

Quer participar?

Quem quiser contar a sua história com as roupas (ou uma em específica), nos mande um email: desguarda_roupa@hotmail.com com o assunto: História das Roupas, que em breve estaremos entrando em contanto. Obrigada! 🙂

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