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O empreender no sustentável

Por Monique Brasil

No mês passado, a Nádia me pediu pra fazer um texto sobre a experiência de empreender no segmento de moda sustentável.

Quero aproveitar a oportunidade pra expressar, da forma mais sincera, todos os meus anseios, alegrias e frustrações sim, porque um texto sincero fala sobre frustrações também. Mas no final das contas, tudo vale a pena quando você faz algo genuíno e consegue se dedicar ao que ama.

Infelizmente, isso é pra poucos – quando você se dá conta de que é privilegiado, precisa saber valorizar isso -, e então passa a amar cada detalhe. Até porque na inconstância que são nossas vidas e o empreender no Brasil, temos que encarar o fato de que nunca se sabe até quando seu sonho vai durar, essa é a verdade!

Eu sempre quis fazer algo que amasse e me fizesse sentir uma pessoa que luta pelo que acredita, ter a oportunidade de fazer algo que me faça crescer como pessoa.  

Enquanto trabalhei pra grande indústria, sempre me senti apagada. Apenas uma operária que vivia pra engradecer empresas exploradoras que visam somente o lucro a qualquer custo. Eu era apenas um número, uma marionete que precisava receber seu salário no final do mês pra consumir coisas que muitas vezes não precisava.

Não bastava trabalhar pra enriquecer a indústria, eu tinha que pegar meu salário pra continuar enriquecendo outras industrias, mas eu sabia que esses dias estavam contados, pois cada vez mais me questionei sobre diversos hábitos e meu estilo de vida. Eu sabia que trabalhar mais de 15 horas por dia e terminar o dia com sentimento de culpa, como se tivesse trabalhado pouco, era um sentimento que construíram em mim. Apenas pra eu me entregasse mais e mais e questionar cada vez menos, mas o que fiz foi justamente o contrário disso.

Eu busquei informação, me planejei, procurei mudar pequenos hábitos diários, pra que cada vez mais essas pequenas mudanças fizessem parte de uma mudança maior em minha vida e foi assim que me vi consumindo cada vez menos e melhor, conhecendo projetos e iniciativas que conciliavam a luta por um mundo melhor com o trabalho que também é necessário, afinal, precisamos sim de dinheiro, ele é o grande mal necessário do mundo.

O que acontece é que as pessoas não utilizam o dinheiro pra o que realmente é essencial, as pessoas são escravas dele, como se ele fosse um deus que precisasse ser cultuado.

Conhecendo diversos projetos, marcas e pessoas, que conciliavam seu trabalho, com a possibilidade de transformar o mundo em um lugar melhor para vivermos, decidi que também seria eu e a minha marca, uma agente transformadora. Como sempre gostei de moda e sempre amei calçados, estudei e desenvolvi a Rabble, que tem em sua essência, a consciência de sua responsabilidade na sociedade, então a minha preocupação com as questões sustentáveis e transformadoras da marca é muito grande.

Vender se torna a consequência de uma mensagem muito maior de reaproveitamento, consumo consciente e transformação de quem se envolve com a marca. Mas os desafios são muito grandes e quem decide empreender, levando em consideração um discurso mais consciente, tem que estar preparado pra ser criticado e julgado o tempo todo. É incrível ver como há pessoas, que mesmo sem fazerem nada pelo próximo ou pelo planeta, conseguem encontrar motivos pra julgar suas iniciativas (e esta é uma das minhas frustrações, não disse que teria? rs).

É engraçado como, por trás de um discurso de economia colaborativa, há pessoas e empresas vivendo da economia tradicional, linear e não circular, da concorrência desleal, onde o seu “concorrente” não torce pelo seu negócio, afinal, se isso pode afetar o negócio dele, como ele poderia?

Ele esquece que o que ele faz é único.

Além disso, essa questão de economia sustentável, colaborativa, slow, é algo novo para todos, literalmente todo mundo está aprendendo a lidar e reconhecer quais são as empresas verdadeiramente conscientes e quais apenas se apoderam desse discurso para vender mais e, por esse motivo, vejo duas situações acontecerem: há aqueles que disputam entre sí, quem é mais “sustentável” (são os famosos sustentáveis de raiz) que se indignam com a quantidade de marcas novas que estão surgindo com esse viés e ao invés de incentivá-las, prefere criticá-las, como se o consumo de moda sustentável deve permanecer apenas num pequeno nicho e considera muita coisa nova e boa que está surgindo, como marcas que só estão fazendo Greenwashing, e acabam por nem conhecer essas marcas a fundo, a devida atenção e incentivo que diversos novos designers merecem.

E há também o público, consumidor, que está aprendendo de quem deve consumir ou não. Eu mesma já tive minha marca questionada quanto a alguns processos, como a utilização do couro por exemplo. Há quem considera que uma marca “sustentável” (sempre vou me denominar ao sustentável em aspas, afinal, ninguém sabe exatamente o que é o mais sustentável em cada segmento) deve ser vegana, pois ela precisa ser livre de crueldade animal, e acha então que está ok, consumir marcas veganas, independentemente do fato dela não se importar com qualquer outra questão que permeia sua produção, como reutilização da água, de materiais, um design que diminua o desperdício, enfim.

Já outras acreditam que consumir produtos em couro seja uma ótima solução para diminuir o consumo, pois  o couro tem uma ótima relação com o tempo e, devido a sua durabilidade, evita-se consumir em um curto prazo um produto igual ao que você acabou de adquirir. E isso, às vezes, é o único ponto de atenção de quem decide consumir couro, sem também importar todos os outros fatores que permeiam a produção, incluindo as condições de trabalho das pessoas envolvidas em todo processo. Assim como também há pessoas que procuram a empresa “perfeita” para elas, que é aquela com certificados sustentáveis, onde ela já comprovou sua ética socioambiental e essas pessoas acabam por desconsiderar marcas e empresas menores, que ainda não possuem estrutura nem condições suficientes de terem um selo desses.

Há também aquela maioria, que são os 72% da população, que simplesmente nem se questionam sobre o que consomem, que simplesmente querem consumir status e beleza – ah, e há, inclusive, os frequentadores das feirinhas e consumidores “conscientes” que só compram da marca slow famosa, que já faz da bolha dele.

No final das contas, tudo o que falta para que a moda Slow fashion conquiste, cada vez mais espaço, é empatia. Como tudo sempre é questão de empatia, falta aos “sustentáveis de raiz” olharem menos para o próprio umbigo e ver quem tem muita coisa legal surgindo e que precisa ser respeitada e valorizada, que todos nós precisamos unir forças; falta aos consumidores “experts” em consumo consciente,  entender que ele pode e deve consumir de uma empresa que ainda não tem um super selo verde estampado no seu site e que consumir direto do produtor, vai além das marcas que batem cartão nas feirinhas de luxo, que tornaram o slow inacessível pra muitas pessoas.

Para os 72%, que geralmente vão ao shopping, eles precisam entender que consumir de um produtor local é muito melhor e mais digno do que consumir do cara que já é o mais rico do mundo, que o dinheiro precisa circular na base e não apenas no topo.

Falta acabar a briga por ego e por status, há status entre as marcas. Brigam pra ver quem é mais sustentável do que o outro, há ego entre os novos consumidores, que estão aprendendo a consumir melhor (ninguém sabe tudo e, quem se considera um consumidor consciente, deve saber que estará sempre no nível de aprendizagem, sempre). Há ego no consumidor comum, que consome apenas status, pela necessidade de se sentir parte, como se sentir parte de uma cadeia produtiva escravagista fosse legal, né?

Mas só o que importa é a roupinha estar bonita e você estar cool, e por pensar assim, já nem abrem a mente para o novo, para as marcas conscientes, que siiiiim, são lindas, cool, cheias de potencial e originalidade. Ah, e isso serve aos que se consideram super cool por consumir somente as marcas das feirinhas, é legal consumir da costureira do bairro, e por aí vai…

Todos precisam perder o sentimento de pertencimento e aprender a consumir de forma genuína e, sim, é um processo a longo prazo, longuíssimo e eterno, porque uma outra verdade é que não há interesse que venha do topo. Os 10% que detém 40% do dinheiro do mundo não quer ver o nosso mísero dinheiro circulando entre nós, então eles manipulam as mídias, a política e mesmo que a grande massa comece a se questionar, logo, mais e mais empresas farão campanhas com viés sustentável pra mostrar que são conscientes, e pra muitos, bastará, como já acontece. E há aqueles, que é a maioria atualmente, que realmente nunca vai se importar.

No final das contas, diante do que tenho vivido no mercado, eu acredito que o caminho, está não somente em fazer um produto belo, diferenciado, mas também em investir em marketing, tentar melhorar as fotos, o feed no instagram, mas eu no caso, faço essas coisas de forma muito lenta, trabalho de formiguinha mesmo, porque os recursos são poucos.

No final das contas, as pessoas consomem o que é belo e, mesmo que você tenha um viés sustentável, as pessoas consumiram aquilo que as representa esteticamente e, só depois, o que as representa eticamente. Essa é a ordem.

Mas também acredito, que não somente eu, assim como muitos que estão nesse caminho de empreender no slow fashion, tem o lado de fazer o que faz, por amor, por saber que está fazendo algo por um mundo melhor. Às vezes, você pode achar que o que faz é pouco, mas todos precisam saber que, qualquer pequeno ato, é imenso e tem um impacto imenso – se não for no mundo, será o impacto na vida de alguém.

Eu ainda sinto a necessidade de ter mais impacto social com a marca, apesar de trabalhar só com materiais de reaproveitamento e, esporadicamente, participar de campanhas de doação de calçados, quero empoderar pessoas e ajudá-las a conquistar independência financeira.

Mas pra conseguir isso, caio em todas as questões anteriores, preciso vender mais e crescer. Para isso, como sei que as pessoas não compram por empatia e escolhem os produtos que vai consumir, pela estética, trabalho devagar para melhorar não só os sapatos que faço, como a forma como divulgo e espero que cada vez mais meu trabalho dê frutos. Porque, pra mim, tem um proposito maior e genuíno.

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