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O consumo consciente é forma de existência (e resistência)

Por Nádia Mello.

Em um texto do geógrafo Milton Santos, ‘Há cidadãos neste país?’, ele reflete sobre o conceito de cidadania e como ela é vista e percebida no Brasil.  Ainda neste texto, defendeu a ideia de como ser cidadão, nos tempos contemporâneos em nosso país, se tornou nada mais, nada menos do que ser consumidor.

Quando estava no colégio muito se falou sobre esse ‘papel cidadão’, meus deveres e direitos, mas confesso que me pareceu um pouco confuso. A ideia de cidadania começou a ser desenvolvida com a passagem do feudalismo para o capitalismo, do trabalho servil para o “livre”, das relações sociais e das novas formas de organização e culturas. A socióloga Teresa Haguette descreve esse caminho, do status de cidadão, como membro de uma sociedade civil (ou seja, a conquista dos direitos individuais), ao reconhecimento dos direitos coletivos até aos direitos sociais.

Atualmente, falar sobre política é um tanto complicado, não apenas devido a polarização e dificuldade que passamos em escutar outros pontos de vista, mas pela instabilidade que se instaurou. Mas a política está diretamente relacionada com todos esses conceitos.

A democracia representativa é considerada também como parte desse processo da nova organização, de Haguette, possibilitando a inserção do conceito de cidadão, que tem deveres e direitos a serem cumpridos. Nela, para assegurar os interesses da população existem os servidores públicos e governantes (do presidente aos vereadores, passando por prefeitos, governadores e deputados) que deveriam trabalhar para atendê-los.  

No entanto, o que vemos nos dias atuais é uma preocupação muito maior em atender aos interesses dos poderes econômicos do que os da população – o que José Saramago define como plutocracia (e não, não é só no Brasil que tem acontecido).  

Mas, no nosso país, precisamos pensar também nas suas particularidades. Relembrando o texto de Santos, ele pontua que apenas no Brasil alguns processos como a desruralização, as migrações, a urbanização, a expansão do consumo de massa, a concentração da mídia, entre outros, se deram de forma concomitantes e, por isso, devemos olhar de outro modo todo o contexto – isto é, para além dos fatores externos, percebidos em outros países.

E é aí que o geógrafo explica como nosso papel cidadão se reduziu a ser consumidor.

Mas, que me perdoe Santos, podemos exercer esse pequeno espaço para mudar relações e talvez até mesmo todas essas relações. Através do nosso consumo, dizemos muito sobre qual mundo queremos construir e pertencer. Podemos simplesmente adquirir coisas pelo status, mostrar que pertencemos a um determinado grupo ou também uma recusa de padrões.

Muito do consumo consciente se relaciona algumas questões, como: a preservação ambiental, a recusa de trabalhos análogos a escravidão, a diversidade, o respeito ao próximo, a empatia, entre outros.

Sendo assim, podemos sim pensar no consumo consciente como uma forma de resistência e “luta” para voltarmos a existirmos enquanto cidadãos, com nossos direitos e interesses sendo de fato considerados. Sim, nem todos podem escolher por uma peça feita de matéria-prima e produção naturais (ou o mínimo poluente para o meio ambiente), por pessoas valorizadas, porque tal peça acaba tendo um preço um pouco mais elevado do que em uma fast fashion, por exemplo.

Atualmente, poder escolher o que consumir e optar por produtos mais ‘sustentáveis’ é também ato político e uma afirmação de que não concorda com as práticas atuais. É não aceitar que se continue utilizando nossos limitados recursos naturais de forma tão irresponsável, é não aceitar a falta de responsabilidade e consideração com a vida das pessoas que trabalham seja na agricultura, produção ou varejo. É ato político, é ato cidadão.

O consumo consciente está relacionado a uma tomada de posição perante a vida e a escolha por exercer o nosso papel de cidadão – este, que perde cada vez mais espaço.

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