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KARMEN: a moda urbana é sustentável

A Mariana Lombardo criou a KARMEN para fazer direito na moda, após insatisfação com a área. A marca se inspira nos grandes centros urbanos e mostra que a sustentabilidade pode ter uma cara urbana.

Foto: Thiago Ventura

Foto: Thiago Ventura

  • Como tudo começou? Você na moda e a marca?

O começo de tudo: fiz faculdade de moda. Este ano vão fazer 16 anos que eu me formei (2002), na Santa Marcelina. Comecei a trabalhar no mercado convencional, de marcas convencionais, dessas que fazem desfiles, fashion week, marcas grandes, fui morar no Sul, trabalhar em um grupo grande.

No meu último trabalho, numa empresa, contratada tipo CLT mesmo, foi numa empresa têxtil. Isso foi de 2011 até 2013. E lá, começou a pipocar essas notícias dos bastidores da moda, do que acontecia por trás. Porque eu, mesmo inserida, não sabia.

Em paralelo, comecei a notar o quanto de matéria-prima que ficava parada nesta empresa têxtil, que é a maior do Brasil. Milhares de metros de tecido que ficam parados e a cada estação lança 300 artigos novos, cada um com dez cores, a conta não fecha. E tecido parado apodrece. Comecei a me incomodar com isso também.

Foram essas duas coisas que me levaram a sair do mercado tradicional e montar a marca.

A marca vai fazer três anos, teve um ano de trabalho de bastidores. Encontrei uma forma de como continuar trabalhando nessa área de moda que eu gosto, mas não compactuar com tudo isso, todo esse sistema. A marca é uma gota no oceano, mas que vai dar conta desse problema de tecido que tá parado em estoque.

O propósito principal da KARMEN é usar os tecidos que o mercado não quer. Eu faço esse garimpo de matéria-prima, que tem muita matéria-prima boa que pode ser utilizada. E um bom estilista agrega design, causa um desejo naquilo, faz uma imagem de moda. O principal da KARMEN é isso, paralelo a isso, essa questão da ética.

Eu trabalhando como estilista não concordava muito com essa política de esmagar fornecedor e é tipo uma coisa normal. Hoje, quando vou trabalhar com modelista ou piloteiro ou mesmo uma pequena facção ou até que com cortador, olho no olho e pergunto quanto é e peço para falar o preço real e não preço para negociar. Porque se tiver, eu vou pagar.

Tem uma história que eu sempre conto. O meu trabalho é um perrengue porque é quantidade pequena, às vezes, é um tecido diferente que tem que enfestar junto, e um cortador, com a maior vergonha, quis me cobrar um real por folha. Tá ótimo e, assim, ele cobra 20 centavos pro magazines e tal. Então, eu sou assim se eu posso pagar, eu pago.

  • A marca é só você? Como é isso?

Isso é uma loucura. Sou só eu, não tenho sócio e aí todos os serviços são terceirizados. Então, eu modelo num lugar, corto em outro, piloto em outro, estampo em outro. Tenho de fazer esse rolê em São Paulo, as feiras eu que faço sozinha. Todo rolê de mídias sociais. O desenvolvimento e produção é todo terceirizado, eu trabalho de casa. Trabalho com pesquisa de materiais, garimpo de matéria-prima, compras, eu que faço. A contabilidade é terceirizada também.

Foi muito legal começar a marca porque, como estilista, eu sempre trabalhei no desenvolvimento até o mostruário ficar pronto. Então, nunca tive essa experiência de produção. Apanhei e ainda tô apanhando muito para entender como é que funciona. É uma outra experiência. E como fui para esse lado da moda sustentável, se abriu uma nova maneira de trabalhar.

  • Como é a produção?

Como trabalho a partir do fluxo de tecido, do que tenho de tecido, a minha maneira de trabalhar como estilista mudou. Eu saí daquela caixa, do que foi ensinado para mim de partir do pantone. Vejo o que tenho de tecido e o tipo de peça que pode dar, não tem cartela de cor fechada. Então, é isso, parto do fluxo de tecido.

Os fornecedores eu tenho graças a todos esses anos trabalhando com moda. Já tenho tipo assim uma carteira de peças com que possa trabalhar e contatos. Mas a maioria não é nem empresa, é tipo a piloteira de um lugar que trabalhei.

Uma coisa que eu quero fazer, mas ainda não consegui é trabalhar com grupos que estão em risco, com mulheres de comunidade que costuram. Mas ainda não consegui.

Foto: Larissa Dare

  • De quanto em quanto tempo costuma produzir?

Isso ainda está sendo formatado, mas uma vez por ano o desenvolvimento. E algumas modelagens eu refaço com outros tecidos. Varia muito de acordo com o que tenho de tecido.

  • Como veio a questão da sustentabilidade para você e como é trabalhar com isso?

Então, a sustentabilidade ela tem vários pilares: o ambiental, o social.. e é muito difícil dentro desse mercado tentar falar essa linguagem. Hoje em dia, tá sendo mais falado, mas ainda está muito no campo das ideias, do marketing mesmo. Não adianta uma empresa gigantesca, de fast fashion, lançar uma campanha de algodão orgânico ou uma coleção sustentável se ela não muda o modelo de negócios.

Acho que a sustentabilidade na moda ainda é uma ideia, enquanto em outras indústrias ela é levada a sério porque tem dinheiro envolvido. Porque essas empresas gigantes de alimentação, de papel, elas têm um índice de sustentabilidade na bolsa de valores. Se o índice está bom, elas valem mais. Na moda, a gente não tem isso. No Brasil, ainda está começando.

Eu fiz um curso na FGV de sustentabilidade para entender como inserir dentro do meu negócio. Eu falo de sustentabilidade, mas tudo surgiu da minha vontade de trabalhar direito na moda. E aí existe esse termo. Tento aplicar a partir de como eu trabalho. É no dia a dia, por exemplo, quando vou ao meu cortador, ele separa as aparas (sobra de tecido) que já tenho para onde dar.

  • Querer trabalhar direito é mais difícil? Ou quais desafios?

Os desafios são de ter uma empresa, sozinha, do quer que seja, e trabalhar direito. Desafio é gerar venda, produzir pouco e ter quem queira produzir pouco, por exemplo, estamparia é uma coisa que eu não faço porque tudo é 200 metros. Eu faço quando dá ou quando alguém faz pouco. Ser pequeno é um desafio e eu costumo dizer que eu sou uma nanoempresa.

  • O que você quer com a marca?

O ideal mesmo que eu penso é que esse problema de sobra de matéria-prima têxtil, o ideal é que não exista mais. E que a Karmen migre para trabalhar com tecidos que tenha uma tecnologia para ser biodegradável, mais naturais possíveis, com menos impacto ambiental, esse tipo de matéria-prima. Esse é o ideal. Mas ainda tá muito distante. E outra coisa que acho importante citar que a KARMEN vem oferecer é uma linguagem de moda contemporânea, urbana.

Foto: Thiago Ventura

Foto: Thiago Ventura

  • O que é essa linguagem de moda contemporânea, urbana?

É uma roupa que não é básica, que não é minimalista. É uma roupa que tem uma cara de moda. Quando aquele cliente que está interessado em sustentabilidade e se preocupa com os bastidores, encontra a KARMEN, ele fala: “nossa, que bom porque eu só encontro uma roupa mais básica ou atemporal, mais minimalista”. Então, tem uma linguagem do que está acontecendo na moda, linguagem urbana. Eu olho muito para cidade. Eu moro na paulista e olho muito como as pessoas se vestem e me inspiro neste contemporâneo.

  • Onde é possível encontrar a KARMEN?

No site, nas feiras (Jardim Secreto, Mercado Bus, BEFW, Feira Farol), todas as oportunidades de feiras, eu faço.

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