Feminismo e moda, precisamos falar

Por Nádia Mello 

Nos últimos cinco anos, o movimento feminista tem “voltado” a ganhar força. Denúncias de assédio, campanhas de empoderamento e grupos para mulheres se ajudarem surgiram em grande escala. O tema também invadiu a moda e as passarelas. Em 2014, Karl Lagerfeld para Chanel fez de sua apresentação uma “marcha feminista”, dois anos depois, no desfile da Dior, uma camiseta com os dizeres “We should be all feminists”.

Mas será que podemos mesmo falar de uma moda feminista?

Espero que essa seja a realidade no futuro. Mas, o presente nos diz que um sexto da população trabalha com moda (fonte: fashioning change), cerca de 1,3 bilhões de pessoas aproximadamente. De acordo com a OIT (Organização Mundial do Trabalho), 21 milhões de pessoas estão expostas a trabalho forçado e, mais da metade, são mulheres.

Até o século XVIII, não existia essa diferença de gênero como a conhecemos. A ideia dominante era a de que existia um monismo sexual, onde mulher era entendida como um homem “invertido”. O modelo de perfeição era representado na anatomia masculina e o corpo feminino era menos desenvolvido.

Com a Revolução Industrial, surgem os conceitos de cidadania e democracia que contribuem para a concepção do entendimento de gênero, homem-mulher. Nesse cenário, o homem foi ao mercado de trabalho, reconhecido. O espaço público era deles. Coube a mulher o papel de ficar em casa e, quando saísse, representaria o marido. As de classes mais desfavorecidas, tinham de trabalhar em locais desprestigiados, como as fábricas.

O mercado das roupas se voltou para as mulheres exatamente pela representação que “tinham” de fazer (claro, estou falando dos nobres, elite e burguesia). Sim, quando elas fossem às ruas, tinham de sair para mostrar o status do marido.

Com o passar do tempo, a moda foi se tornando essa indústria poderosíssima. E, embora voltada, principalmente, ao público feminino, quem a comanda são os homens.

Até quando usavam acessórios para própria proteção, eles as barravam. No final do século XIX, nos Estados Unidos, o alfinete de chapéu das mulheres era usado como arma contra assédios. Os mesmos passaram a ser proibidos ou feitos com material de forma a se evitar tal uso.

Amancio Ortega, dono da Zara é um dos homens mais ricos do mundo, assim como Bernard Arnault, a frente do LVMH (holding francesa formada pelos grupos Moët et Chandon, Hennessy, Louis Vuitton e que, em 2017, comprou parte da Dior).  A maioria das holdings e marcas são eles quem estão a frente.

As mulheres? Na grande maioria são costureiras, modelistas e piloteiras – as profissões de menor prestígio e remuneração no mercado – ou modelos que são vistas apenas como objetos (nesta matéria, o Estadão nos mostra como, em campanhas e editoriais, a mulher aparece como submissa ao homem, endossando a cultura do estupro).

Recentemente, o Globo de Ouro foi marcado por “protestos” feministas – desde o uso do preto como forma de divulgar o movimento Time’s Up, pelo fim do assédio e abuso sexual e a favor da equidade de gênero até o discurso de Oprah Winfrey e, claro, sempre lembrando de Natalie Portman enfatizando a falta de mulheres nos indicados a direção. Desde outubro do ano passado, Hollywood tem visto denúncias aumentarem e os boicotes a trabalhos dos “denunciados” também.

Mas isso também não deveria acontecer na moda? Não só em relação a casos sabidos de fotógrafo (recentemente, Mario Testino e Bruce Weber foram denunciados) em relação a modelos, mas talvez, precisamos começar a olhar mais para quem explora a mulher enquanto mão de obra e talvez boicotar? (pelo menos pensar em algum tipo de ação ou é aceitável este abuso no ambiente de trabalho?). Comprar das várias criadoras e, principalmente, reconhecer o valor e potencial das atividades manuais, inferiorizada desde antes da ideia dos gêneros homem-mulher.

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