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Descabeladas, a história por trás

O nosso primeiro editorial surgiu de uma maneira inesperada. A vida nem sempre é como planejamos, não é mesmo? rs.

O que nos levou a querer realizar os editoriais foi o nosso desejo de valorizar e retratar os muitos tipos de beleza que existem, ainda mais num país tão miscigenado como o nosso. E, principalmente, retratar aqueles que são excluídos pelo “padrão” atual.

A primeira coisa que definimos foi o local: (Obrigada,) Malha, por motivos pessoais, iríamos ao Rio e definimos fazer lá por ser um local que olha para a moda de um outro jeito, para além do modelo “tradicional”.

Primeiro pensamos em trabalhar com modelos refugiados.

Era meados de agosto quando rolavam as olimpíadas, e o clima não era dos mais favoráveis para eles (uma das tantas problemáticas envolvidas nos Jogos).

Então, eles serão nossos modelos em outro editorial (promessa, viu?).

As pessoas com deficiência passaram a ser nossa nova proposta (inspiradas pelos jogos paraolímpicos – a princípio, o site sairia em setembro, mesma época) e, ao falar com uma amiga para nos ajudar a proposta mudou.

Quando a Bruna falou com a amiga Lolla Angelucci (que participa do editorial) sobre nossa proposta, ela nos contou sobre um projeto de trabalho com mulheres carecas e todo seu movimento nos inspirou.

Afinal, no Brasil temos quase uma ditadura dos cabelos longos (e lisos). Já começamos a desconstrução para aceitarmos todos os tipos de cabelos, seja liso, cacheado ou black power. Mas, e a escolha (ou aceitação) de não ter cabelo, por que não entra nessa conversa também?

Conhecemos algumas histórias (bem diferentes) e reunimos sete mulheres. Mas, devido a alguns problemas pessoais ou de saúde, nosso grupo acabou se reduzindo a três. Elas são lindas, participaram do nosso editorial e nos contaram sobre como ficaram carecas e como é essa relação. Um muito obrigada a elas: Clarice, Lolla e Monica. Vale conhecê-las!

Clarice

desguarda-7102-2 “Estou careca a cerca de 1 mês, resolvi raspar a cabeça pois desde novembro fui diagnosticada com um linfoma, porém meu diagnóstico foi complicado e demorado. Fiquei três meses em observação e fazendo exames para que o médico, enfim, decidisse qual seria o tratamento. No dia em que ele afirmou que seria a quimioterapia, pois a doença estava se desenvolvendo na medula e aparecendo eu outros órgãos, eu resolvi deixar o cabelo mais curtinho. Após o início do tratamento começaram as quedas leves, passei a máquina e a partir daí não teve jeito. Foram quedas frequentes e com grande volume de cabelo, resolvi passar a 0 pra não ver cair.
Não houve muita dificuldade na minha aceitação ao não ter mais os cabelos. Acredito que por ir me desapegado aos poucos e por saber que seria inevitável, entretanto demorei um pouquinho pra aceitar, pra me enxergar bonita até que tirei a primeira foto e os comentários foram muito positivos me fazendo me sentir melhor e elevando um pouco a autoestima. Na verdade, tenho trabalhado essa questão diariamente. Optei por não usar peruca, mas uso lenços até mesmo para proteger a cabeça. Confesso que sinto falta dos cabelos principalmente no toque. Às vezes, me paro observando as pessoas enquanto mexem em seus cabelos. Poucas vezes sai sem nada na cabeça e apesar dos olhares curiosos e do certo incomodo que isso causa tenho buscado assumir minha careca”.

Lolla

desguarda-6208-2“Eu sou um caso bem raro na medicina e nasci com Alopecia Areata, que é um tipo de calvície, autoimune, em que você perde cabelo em falhas, que também são chamadas de peladas. Sabe aqueles homens com uns buracos bem visíveis na barba? Pois é! No final da adolescência as falhas cresceram, cresceram e eu raspei tudo, nem existia o smigle do Senhor dos Anéis na época, mas eu super me sentia uma aberração tendo só uma parte do cabelo. Raspar me deu mais autonomia sobre mim mesma, me fez sentir mais no controle.

Depois de um tempo as falhas progrediram muito mais e hoje eu nem preciso raspar mais, não tenho nada de cabelo. Mas tenho cílios (um monte) e sobrancelha (um monte) que também não é muito comum. E, olha, rola um estranhamento, as pessoas apontam você na rua. Te param para te dizer que você ficou bem feia. Recentemente um cara me parou na rua para me dizer que ninguém gosta de gente careca, para eu não me iludir. As pessoas também me perguntam muito, muito, muito mesmo porque eu não tenho cabelo, das formas mais grosseiras e invasivas do mundo. Gente estranha passa a mão na minha cabeça como se fosse um bem público, à disposição. Gente estranha na rua vem me abraçar do nada (isso é muito estranho, não importa o motivo, não dá para defender essas pessoas). Gente estranha na rua pergunta se você é homem ou mulher.

Nossa, acho que posso passar um dia inteiro listando coisas. Eu tenho 8 perucas entre aquelas que são consideradas próteses (super enganam como cabelo) e aquelas baratinhas de loja de fantasia. Uso quando estou com frio na cabeça e acho que a roupa não combina com gorro ou turbante e para complementar fantasias no carnaval. No dia a dia elas me incomodam. A maior vantagem de ser careca é mesmo no calor, nossa, que alívio sentir aquele ventinho gelado na careca!! Também acho demais receber carinho na careca, virou uma zona erógena. E é impossível passar despercebida em qualquer lugar, todo mundo sempre lembra de você.

Desvantagens? Acho que é não poder brincar com o cabelo (fazer aqueles penteados elaborados do pinterest) e ter que ouvir da geral “nossa, mulher geralmente é tão vaidosa, é difícil ver uma careca, né?” (eu sou super vaidosa!). Ficar careca foi difícil, foi muito difícil. A gente é ensinada a se odiar, desde sempre, a entender que seu cabelo, seu corpo, sua vida não é o que deveria ser. Eu já não sou nada padrão, era magra, mas sou baixinha, ficar careca foi um choque. No processo eu passei mais horas chorando do que tenho coragem de admitir.

Foram muitos os dias trancada no banheiro não me achando digna de sair na rua. Com o tempo, fui reconstruindo essa autoestima perdida. Não sei nem dizer como, mas ela foi surgindo. Eu me acho muito bonita, adoro meus olhos, fiquei até um tempo fazendo muitos autoretratos antes do termo selfie existir para me encontrar, encontrar essa beleza perdida. Sabe, hoje eu acho que ficar careca foi essencial para eu ter uma autoestima saudável, me achar linda. Ser tão fora do padrão me fez questionar mais os padrões, me fez me entender melhor. Hoje, me sinto poderosa. Levanto a cabeça e vou”.

Monica

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“Sou careca há nove meses. Estava com baixa autoestima e decidi raspar a cabeça. Me sinto bonita, considero como principais desvantagens o frio e ter que sempre estar com um batom e brincos. Não costumo usar peruca, mas posso pensar para um dia sair diferente. O ficar careca representa uma mudança e transformação do visual. Às vezes tem que mudar para dar uma nova repaginada, e cabelo não é tudo, ficar careca às vezes é bom, ficar careca é um ato de coragem e empoderamento”.

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