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Acolá: a arte como inspiração para roupa com expressão

Por Nádia Mello

Fiquei sabendo da Acolá pelo site Slow Down Fashion. Combinamos de nos encontrar na própria loja, que fica em Pinheiros, para a entrevista e fomos para um café ali perto. A marca foi criada pelas primas Lais Abbate e Beatriz Tavares pela vontade de um fazer diferente. Na arte, buscam inspiração para criar as peças que desejam ser a expressão de alguém. 

– Como surgiu a ideia da Acolá?

A gente morou na França ao mesmo tempo. Eu (Bia) tava fazendo intercâmbio de administração lá e eu sempre quis abrir alguma coisa. A La tava estudando moda, tava trabalhando com moda lá e aí a gente falava: ‘nossa, bem que a gente podia voltar ao Brasil e abrir uma coisa nossa. Ficou um pouco no ar. Ela me levou em algumas exposições e lugares. Mas não foi tanto para frente na viagem. A gente nem sabia quando ia voltar direito.

Quando voltamos, a La se movimentou antes. 

É, primeiro eu procurei emprego e não gostei de nada. Eu não me interessei pelas oportunidades, só que eu precisava trabalhar. Resolvi começar alguma coisa. Comecei uma marca meio sem saber de nada, fazendo bazar, retomando contato com costureiras que eu conheci na época da faculdade – porque eu fui pra França logo depois da faculdade. E comecei meio assim. Não sabia nada de administração, nada, não tinha controle nenhum sobre as coisas que eu comprava, fui indo. A Bia era minha super cliente e ela também tava um pouco de saco cheio com o trabalho dela e já estava com a ideia de empreender com a mãe dela. Eu a convenci de ser minha sócia.

No dia da nossa primeira reunião, roubaram o carro dela e ela não foi.

Mas eu peguei o dinheiro do seguro do carro e foi ótimo – para abrir a loja. Eu já não estava muito satisfeita no meu trabalho, trabalhava com marketing de produto numa empresa multinacional,  super engessada. E já tinha interesse em fazer algo diferente, não me via muito naquele ambiente fazendo as coisas já pré-programadas. Eu queria fazer alguma coisa nova, alguma coisa diferente e tava pensando em abrir um negócio com a minha mãe, antes da Copa do Mundo, que era um negócio de inglês. Só que nisso comecei a me envolver mais nos projetos da La porque eu perguntei se ela sabia calcular preço e coisas do tipo e ela não tinha ideia. Comecei querendo ajudar, mas depois eu já me envolvi na história toda e ela sugeriu deu sermos sócias. Eu já tava com o dinheiro do seguro do carro e eu falei: ‘talvez eu tenha um pouco de dinheiro para ajudar no começo’. A nossa ideia era abrir um ateliê, começar menor, atender lojista, multimarca e tal. Só que a gente começou a procurar um espaço e todos os alugueis eram muito caros. A gente falou: ‘Ah, se é para pagar caro no aluguel, melhor abrir como loja porque aí a gente já começa vendendo, tendo mais cliente e tal’.

Não foi nada muito planejado apesar deu ter feito administração. Eu larguei meu emprego no começo de fevereiro. A gente começou a procurar imóvel, a fazer uma coleção de inverno, encontramos um imóvel em Pinheiros, na Vupabussu, uma rua aqui do lado de onde estamos hoje, era um sobradinho. A gente inaugurou a loja em junho de 2012.

Esse foi o começo da marca, mas a gente começou assim sem planejar muito. Mas desde o começo a La já tinha umas ideias de se inspirar em arte, ter algum tema que fosse relacionado a esse universo que é uma coisa que a gente carrega até hoje.

– Como veio essa ideia de se inspirar em arte?

Eu sempre gostei muito desse universo e acho que a moda tem muito a ver, sempre conversou muito com isso. E quando entrei na faculdade fiquei em dúvida se fazia moda ou artes plásticas. Acabei juntando as duas coisas em uma só.

– E como funciona? Vocês fazem parceria com artistas?

Sim, a gente já fez algumas vezes. A próxima coleção de verão, a gente convidou uma artista que se chama Manuela Eichner, que mora em São Paulo. Ela vai criar duas estampas e a nossa vitrine.

E teve uma coleção com o Maurício Piza, que é um artista de São Paulo. As estampas eram inspiradas em obras dele, algumas até reproduzidas fielmente. E outras, a Laís e a filha dele, que é designer gráfica, criaram algumas estampas, porque tem uma diferença entre pegar a tela pronta e criar uma estampa que tem uma parte técnica com isso. No arte 1, aquele canal da Band,  fez um programa com a gente sobre a parceria.

E as outras inspirações em arte podem ser com pessoas que a gente não conhece, artistas mortos, por aí.

– Como é a produção?

A produção é terceirizada. A La cria os modelos, desenha os modelos, faz a pesquisa de tecido com fornecedores daqui. As estampas, a gente também desenvolve. E a produção a gente faz sempre com algumas oficinas. Tem uma que já está há mais tempo com a gente, que é a Jô – não tem um nome a oficina -, mas ela é a chefe da oficina, ela é piloteira, modelista e todas as costureiras são do bairro, na Cidade Ademar. São pessoas que trabalham em casa, pessoas do bairro mesmo, então, é bem para desenvolver a economia local. A gente tem bastante controle sobre isso. A gente sabe com quem estão as nossas roupas.

A gente já trabalhou com uma outra oficina aqui perto, em Pinheiros, que fazia malha, mas deu uma parada porque ela não estava tão estruturada assim. Oficina é sempre uma coisa que roda bastante, até achar alguém de confiança e que faça bem, demora um pouco. Então, tem a Jô que faz uns dois anos que a gente trabalha, que é a pessoa de mais confiança e que recebe a maioria da produção mesmo.

É sempre uma tarefa difícil porque a produção é aquela coisa, você aprova uma e se alguma coisa der errado, você multiplica pela quantidade de roupas que você tá fazendo. Então, tem um potencial de dar muito certo e um potencial de dar muito errado.

Mas melhorou bem. Acho que a gente tem uma qualidade boa porque é uma coisa que a gente se preocupa, com o acabamento… Assim, os tecidos, a gente testa tudo.

– Quanto tempo demora uma coleção para outra?

De uma peça para ser desenhada até chegar a loja, são seis meses.

No começo, a gente seguia bem o que o mercado fazia. Mas, depois a gente começou a dar uma amolecida. Com o tempo, experiência e consultorias, a gente foi entendendo qual era a pegada do negócio. A gente não é uma marca que faz tendência, então, não tem porque seguir tão à risca o mercado. Então, aprendemos a ir no nosso ritmo mesmo e criando alguns temas ao longo do ano.

– O que vocês querem com a Acolá?

Não me vejo muito trabalhando com outra coisa. Mas acho que é o que a Bia sempre falou, tem que ter um propósito a mais; o seu trabalho. Não pode ser só vender mais roupa porque você não está contribuindo em nada. Você está aumentando o consumo.

Primeiro, queremos fazer roupa que dure mais e também que as pessoas escolham melhor, consumam menos. Tem cliente que pensa assim, acho que bastante até. E conseguir fazer as coisas direito, de maneira ética.

Fazer algo que transcenda, ter um propósito maior, ter um negócio que faça algo pelo mundo.

– Quais as maiores dificuldades?

Produção, em todos os sentidos, tanto de quem entrega, atraso – tudo atrasa. E é o lugar que a gente mais pode ter prejuízo. No começo, a gente tinha bastante dificuldade com vendedor.

– Qual o propósito da marca?

Inspiração na arte para criar roupas com expressão. Inspiração na arte já vem desde o começo e uma coisa que a gente percebeu que tem diferente de outras marcas é entender a roupa como uma forma de expressão mesmo.

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