A moda e a rua

Por Nádia Mello

A moda é uma das maiores formas de expressão que temos. Tenho escutado bastante isso, principalmente, depois que comecei no Desguarda Roupa e entrevisto marcas que “lutam” por uma moda sustentável.

O que usamos representa muito o que somos, nossos gostos, a que lugares queremos pertencer e quais não. Claro, há significados diferentes de acordo com a cultura. Mas o ponto é que eles sempre existem.

Talvez a grande maioria não perceba o quanto a roupa fala e a moda também.

A rua nos mostra os diversos discursos construídos com o que usamos. Desde a vitrine de lojas a transeuntes, sempre lembrando das pessoas de rua. Inclusive, alguns personagens que temos de adotar devido a trabalho, por exemplo.

Pelo visual de uma loja, nem precisamos entrar, já temos uma boa noção do que esperar e se satisfaz nosso desejo ou não. A roupa que aceitamos pagar a mais e a que achamos muito cara, denuncia aquilo que valorizamos. Em um restaurante, sabemos pelos uniformes e clientes qual é o estilo dali e de quem o frequenta, mais tradicional, conservador, extrovertido, criativo, mais jovem, etc.

A roupa que separamos para doar ou aquela que vamos colocar para vender demonstra o valor que damos para o outro. Porque a peça mais detonada, é ok ir para outro. Já aquela em bom estado é para nos dar dinheiro. É para quem possa pagar por ela.

Nas doações de rua, encontramos todo tipo de roupa. Toda forma de moda. E há quem dê uma roupa e ainda queira algum direito sobre ela, como quem ela deve ficar ou a forma de ser usada.

Quando em uma lojinha de rua, com mais de mil peças, uma voluntária sugere colocar qualquer roupa, o importante é ter o que pegar, mostra a forma e relação com aquelas pessoas. Fala um pouco do mundo dela.

Se eu decido transformar uma roupa, isso diz sobre minha forma de viver. Assim, como se aceito doar aquela peça tão amada que já não me serve e fiz um esforço para comprar. Se eu resolvo abrir mão daquela peça desejada toda trabalhada por um designer conhecido para entregar a uma pessoa em situação de rua, diz a respeito de qual mundo quero construir. Assim, como se eu não o fizer, também.

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